domingo, 4 de março de 2012

Herança negra e negação

"Os escravos são as mãos e os pés do senhor de engenho, porque sem eles no Brasil não é possível fazer, conservar e aumentar a fazenda, nem ter engenho corrente."
Padre Antonil


Não há dúvida de que a presença negra no Brasil colonial fez toda a diferença no projeto canavieiro, motor do desenvolvimento econômico da colônia e, principalmente, da metrópole, Portugal. Desde o princípio da introdução da mão de obra escrava no Brasil (no início do anos 1530, mais precisamente com a chegada da expedição de Martim Afonso de Sousa, em 1532), registros históricos apresentam um número entre 3.300.000 a 3.600.000 de negros africanos que desembarcaram em terras nacionais. Chegaram a ser maioria no total populacional, mas, sempre foram explorados com repúdio e violência, sem reconhecimento por sua importância social.
Os movimentos negros, desde os radicais do período colonial (que objetivavam a libertação de cativos) até os surgidos na década de 1910 (de luta pela cidadania recém-adquirida, em 1888), trouxeram á tona a necessidade de se pensar sobre a importância negra na história do Brasil. O fato é que mesmo com o reconhecimento da igualdade racial (afinal, a ciência comprovou que a origem de todos os povos deu-se no continente africano), ainda vivemos sob a sombra do preconceito, que por seu caráter ignorante, não consegue perceber que a cultura brasileira deve parte de sua diversidade e riqueza aos negros.
A cultura africana penetrou na língua portuguesa, acrescentando um número sem conta de novos vocábulos. Eis algumas palavras portuguesas de origem africanas: acarajé, agogô, angu, banguela (os negros banguelas arrancavam os dentes da frente, em criança), batuque, cachaça, cachimbo, caçula, dengo, fubá, jiló, macumba, miçanga, moleque, samba, tutu, xingar.
Na alimentação, em documento de 1775, estão relacionados os alimentos básicos para a manutenção do escravo: milho, fubá, farinha de mandioca, feijão, carne seca, sal e azeite de mamona, além da aguardente, utilizada por muitos colonos para "proteger" os escravos do frio. Esses alimentos compõem a mesa do brasileiro até hoje, e participam de pratos típicos da culinária nacional, como o feijão tropeiro (que surgiu nas Minas Gerais, região de grande concentração de escravos nos séculos XVIII e XIX).
As festas de confraternização entre os escravos, em geral, possuíam cunho religioso. As músicas influenciaram ritmos que podem ser encontrados em bandas nacionais atuais, como a banda Casaca (cujo o nome faz referência a um instrumento musical proveniente da cultura africana), com seus tambores de congo, e o grupo Nação Zumbi, que mistura o som de instrumentos musicais de origem afro e a guitarra elétrica. Além disso, a mistura de elementos católicos às atividades fetichistas deu origem ao sincretismo religioso hoje presente na umbanda, candomblé e quimbanda.
A presença de elementos provenientes da cultura afro no nosso cotidiano é indiscutível, já que é visível a todo observador da sociedade. O difícil é não perceber que mesmo compartilhando elementos culturais entre etnias diferentes, ainda existe uma separação injustificada entre os povos.
As "mão e pés do senhor de engenho" permaneceram, basta olhar ao redor. O problema está em ainda ser vista como uma herança ruim do período colonial.

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